Descrição da prática

[Man Sleeping on Bench, Brooklyn Bridge, New York City] 1928-29 Walker Evans
[Man Sleeping on Bench, Brooklyn Bridge, New York City] 1928-29 Walker Evans

O conteúdo do poema para a realização do livreto e da cenografia está abaixo.

A descrição da prática e sua dinâmica será apresentada no primeiro módulo da disciplina.

Federico García Lorca – ‘Cidade sem Sonho’ (1929)

‘Ninguém dorme no céu. Ninguém, ninguém.
Não dorme ninguém.
As criaturas da lua cheiram e rondam as choupanas.
Virão as iguanas vivas morder os homens que não sonham
E o que foge com o coração partido encontrará pelas esquinas
O incrível crocodilo imóvel sob o frouxo protesto dos astros.
Ninguém dorme no mundo. Ninguém, ninguém.
Não dorme ninguém.
Há um morto no cemitério mais longínquo
que se queixa há três anos
porque tem uma paisagem seca no joelho
e o menino que enterraram esta manhã chorava tanto
que foi preciso chamar os cães para calá-lo.
A vida não é sonho. Alerta! Alerta! Alerta!
Caímos pelas escadas para comer a terra úmida
Ou subimos ao cume da neve com o coro das dálias mortas.
Mas não há esquecimento nem sonho:
carne viva. Os beijos atam as bocas
num emaranhado de veias recentes
e a quem dói a sua dor doerá sem descanso
e o que teme a morte leva-la-á sobre os ombros.
Um dia
os cavalos viverão nas tabernas
e as formigas furiosas
atacarão os céus amarelos que se refugiam nos olhos das vacas.
Outro dia
veremos a ressurreição das mariposas dissecadas
e ainda, ao andar por uma paisagem de esponjas pardas e barcos mudos,
veremos brilhar nosso anel e manar rosas de nossa língua.
Alerta! Alerta! Alerta!
Aos que guardam ainda pegadas de garra e aguaceiro,
àquele rapaz que chora porque não sabe a invenção da ponte
ou àquele morto que já não tem mais que a cabeça e um sapato
há que levá-los ao muro onde as iguanas e serpentes esperam,
onde espera a dentadura do urso,
onde espera a mão mumificada do menino
e a pele do camelo se eriça com um violento calafrio azul.
Não dorme ninguém no céu. Ninguém, ninguém.
Não dorme ninguém.
Mas se alguém fecha os olhos,
chicoteai-o, meus filhos, chicoteai-o!
Haja um panorama de olhos abertos
e amargas chagas acesas.
Não dorme ninguém pelo mundo. Ninguém, ninguém.
Já o disse.
Não dorme ninguém.
Mas se alguém tem de noite demasiado musgo nas têmporas,
abri os alçapões para ver sob a lua
as falsas taças, o veneno e a caveira dos teatros.’

 

 (em inglês):

 In the sky there is nobody asleep.  Nobody, nobody.

Nobody is asleep.

The creatures of the moon sniff and prowl about their cabins.

The living iguanas will come and bite the men who do not dream,

and the man who rushes out with his spirit broken will meet on the

street corner

the unbelievable alligator quiet beneath the tender protest of the

stars.

 

Nobody is asleep on earth.  Nobody, nobody.

Nobody is asleep.

In a graveyard far off there is a corpse

who has moaned for three years

because of a dry countryside on his knee;

and that boy they buried this morning cried so much

it was necessary to call out the dogs to keep him quiet.

 

Life is not a dream.  Careful!  Careful!  Careful!

We fall down the stairs in order to eat the moist earth

or we climb to the knife edge of the snow with the voices of the dead

dahlias.

But forgetfulness does not exist, dreams do not exist;

flesh exists.  Kisses tie our mouths

in a thicket of new veins,

and whoever his pain pains will feel that pain forever

and whoever is afraid of death will carry it on his shoulders.

 

One day

the horses will live in the saloons

and the enraged ants

will throw themselves on the yellow skies that take refuge in the

eyes of cows.

 

Another day

we will watch the preserved butterflies rise from the dead

and still walking through a country of gray sponges and silent boats

we will watch our ring flash and roses spring from our tongue.

Careful!  Be careful!  Be careful!

The men who still have marks of the claw and the thunderstorm,

and that boy who cries because he has never heard of the invention

of the bridge,

or that dead man who possesses now only his head and a shoe,

we must carry them to the wall where the iguanas and the snakes

are waiting,

where the bear’s teeth are waiting,

where the mummified hand of the boy is waiting,

and the hair of the camel stands on end with a violent blue shudder.

 

Nobody is sleeping in the sky.  Nobody, nobody.

Nobody is sleeping.

If someone does close his eyes,

a whip, boys, a whip!

Let there be a landscape of open eyes

and bitter wounds on fire.

No one is sleeping in this world.  No one, no one.

I have said it before.

 

No one is sleeping.

But if someone grows too much moss on his temples during the

night,

open the stage trapdoors so he can see in the moonlight

the lying goblets, and the poison, and the skull of the theaters.

By Federico García Lorca, translated and edited by Robert Bly, and published by Beacon Press in Selected Poems: Lorca and Jiménez. © 1973